Quanto o sistema educacional brasileiro foi influenciado por Paulo Freire?

Educação

Quanto o sistema educacional brasileiro foi influenciado por Paulo Freire?

Hoje no Brasil, devido ao regresso na educação após o golpe militar de 1964 e todo o período do regime censurando diversos autores nacionais e internacionais, entre eles muitos relacionados a sociologia da educação como o próprio Paulo Freire, mas também Pierre Bourdieu, Darcy Ribeiro, Lev Vygotsky, Michel Foucault e até mesmo Jean Piaget. Isso, resultou em fragilizar a sociedade inclusive na interpretação de texto. Explico: Há uma falsa interpretação de que por ser Paulo Freire o patrono da educação nacional, exista então correlação em seus ensinamentos filosóficos no campo da educação com o sistema educacional brasileiro em si.

Ser patrono da educação representa que a figura escolhida ao posto é a pessoa mais influente, mais capacitada e que demonstrou ser o maior pensador na área da educação no nosso país, não que essa figura seja responsável pelo sistema educacional brasileiro (esse sim, responsabilidade do Ministério da Educação e seus ministros indicados). Muito pelo contrário, o reconhecimento de Paulo Freire é destacado mundialmente muito mais por seu trabalho exercido no exterior do que em território nacional.

Angicos 1963. Reprodução: Internet

Foi em Angicos (RN) no ano de 1963 que Paulo Freire passou a ser reconhecido, devido ao seu experimento realizado através da alfabetização de adultos em curto prazo. Foram cerca de 300 adultos alfabetizados em 40 horas. Seu método de aprendizagem era baseado em palavras nas quais estavam inseridas na realidade cotidiana daquelas pessoas, identificando-as como sujeitos portadores de conhecimento, que aprendiam a partir das experiências vividas, da leitura de mundo e do diálogo. Eram cerca de 300 adultos que não sabiam ler e muito menos escrever, que assinavam contratos com a digital do dedo, que trabalhavam cerca de 12 horas em ambiente rural e que por serem analfabetos, na época não eram permitidos nem mesmo a votar.

Após esse experimento, houve uma grande greve na cidade de Angicos, o que resultou em atribuir a Paulo Freire esse movimento, sendo ele o responsável por ensinar essa população a ler. Como já dito pelo próprio Freire, seria inocência extrema acreditar que as classes dominantes estejam interessadas em desenvolver um sistema de ensino adequado às classes dominadas. Foi no mesmo ano de 1963 que, após ter demonstrado extrema eficácia em seu método de alfabetização, Darcy Ribeiro, ministro da educação do Brasil na data, chamou Paulo Freire para ajudar no programa nacional de alfabetização, resultando assim na única participação do pedagogo em um política de estado nacional.

Única e curta, pois logo no ano seguinte, com o golpe militar, foi dado o começo da desconstrução da educação nacional, extinguindo o projeto proposto por Paulo para criar ciclos de cultura em todos os estados brasileiros, com meta de alfabetizar 1,8 milhões de pessoas em 3 meses. Paulo Freire foi preso durante a ditadura militar, ficando 70 dias preso acusado de subversão. Foi censurado e mandado ao exílio. Para se ter ideia de quão perigoso Freire era para o regime, basta perceber que seu livro mais conhecido mundialmente e que é o principal fundamento de sua pedagogia crítica, Pedagogia do Oprimido, foi lançado no Brasil somente em 1974 sendo escrito em 1968.

Quando voltou do exílio em 1980, passou a exercer novamente sua prática educacional no Brasil, mas nunca em cargo responsável pelo sistema educacional e sim com sua contribuição intelectual. Somente em 1989, quando Luiza Erundina se tornou prefeita da cidade de São Paulo, que Paulo Freire foi exercer o cargo de secretário de educação da cidade, resumindo assim sua contribuição ativamente na política de educação, mesmo que resumida a uma só cidade.

O retorno de Paulo Freire após 15 anos de exilo. Reprodução: Estadão

 Porém, foi no seu período de exílio que Paulo Freire passou a receber verdadeiro reconhecimento mundial na área. Passou e foi marcante na América do Sul em países como Chile e Bolívia, na Europa passando pela Suíça, Suécia e Inglaterra, sendo professor da universidade de Cambridge e também na América do Norte quando foi aos EUA. Inclusive, foi na sua passagem aos Estados Unidos que passou a integrar tanto o quadro de consultor no conselho mundial de igrejas, como o quadro de professores da universidade de Harvard.

Já na África é conhecido por liderar projetos educacionais na Zâmbia, Moçambique, Cabo Verde e Guiné Bissau. Também é doutor honoris causa em mais de 40 universidades do mundo todo, como Oxford na Inglaterra e Coimbra em Portugal. Recebeu outros tantos prêmios, como o prêmio Educação pela Paz, da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciências e Cultura (Unesco).

Escultura em homenagem a Paulo Freire, em Estocolmo, na Suécia.

Mas o que faz Paulo Freire ser tão reconhecido mundialmente? Quais foram as práticas e ensinamentos passados por ele durante sua trajetória que lhe concedeu até mesmo uma estátua em Estocolmo, na Suécia? E o que realmente incomoda no Brasil? Há diversas opiniões vazias pelas redes sociais hoje que responsabilizam Freire pelo o que ele não fez, que resumem Freire ao que ele não é e que encontram nele um bode expiatório de uma luta ideológica a qual ele nunca lutou.

Resumir um preconceito a um autor, seja para criticar ou elogiar, sem ao menos ler sua obra é no mínimo mau-caratismo. Ler sua obra é marcante para qualquer pessoa, mesmo que seja um impacto negativo, quem o lê passa a perceber outra realidade de vida. Paulo Freire jamais seria contra quem era oposto ao que ele pensava, muito pelo contrário, faria o maior esforço para ouvir e compreender a opinião de quem o critica. O exercício democrático de seu pensamento, é talvez, o maior obstáculo para ser aceito dentro da camada da sociedade reacionária, retrógrada, atrasada e amarga que sofre ao ver pessoas de classes dominadas passarem a ter o acesso educacional que as classes dominantes já tinham.

]No Brasil, suas práticas não são relacionadas ao sistema educacional vigente, tudo o que foi criticado por ele como as filas de carteiras em salas de aulas, os livros didáticos editados para serem distribuídos em todas as escolas que criam a educação bancária, construindo uma aprendizagem baseada em “decoreba” e que na maioria das vezes esses livros não refletem a realidade proposta pela comunidade escolar local. Também o contexto autoritário militar em que os educandos são submetidos, continuam vigentes na educação nacional. O que Paulo influência e sempre irá influenciar não é o sistema educacional vigente, mas sim o corpo pedagógico, educadores e pessoas que entendem ser possível fazer da educação nacional uma prática humanizada.

 

About author

Gustavo é graduado em Gestão Comercial, com pós-graduação em Habilidades e Competências Socioemocionais na Educação Básica e pós-graduação em Gestão Escolar, todas as graduações pela Universidade Positivo do Paraná. É CEO da Icapiedu. Plataforma gamificada que utiliza de uma metodologia socioemocional para realizar diagnósticos nas escolas e fortalecer o protagonismo dos alunos que sofrem com o bullying no ambiente escolar. Por fim, é um entusiasta por uma educação nacional de qualidade e com a cara do Brasil.
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